segunda-feira, 21 de abril de 2008

Aproveitando a viagem

Já que eu estou aqui, lembrei - me desse texto de Vinícius de Moraes


Mensagem à poesia
Mensagem à poesia
Não possoNão é possívelDigam-lhe que é totalmente impossívelAgora não pode serÉ impossívelNão posso.Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrarMuitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundoE as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindoA saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuoNos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lheQue a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vidaFaçam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhosPronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vouNão é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcereHá um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meusOmbros não se devem curvar, que meus olhos não se devemDeixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homensE não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entantoQue sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimentoAos homens perplexos; digam-lhe que me foi dadaA terrível participação, e que possivelmenteDeverei enganar, fingir, falar com palavras alheiasPorque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.Se ela não compreender, oh procurem convencê-laDesse invencível dever que é o meu; mas digam-lheQue, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que meDói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro ladoNão devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimentoNem debruçar-me sobre mim quando a meu ladoHá fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estradaJunto a um cadáver de mãe: digam-lhe que háUm náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homemArrependido; digam-lhe que há uma casa vaziaCom um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grandeAumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferaçõesHá fantasmas que me visitam de noiteE que me cumpre receber, contem a ela da minha certezaNo amanhãQue sinto um sorriso no rosto invisível da noiteVivo em tensão ante a expectativa do milagre; por issoPeçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agoraCom a sua voz de sombra; que não me faça sentir covardeDe ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurávelSolidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se calePor um momento, que não me chamePorque não posso irNão posso irNão posso.Mas não a traí. Em meu coraçãoVive a sua imagem pertencida, e nada direi que possaEnvergonhá-la. A minha ausência.É também um sortilégioDo seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-IaNum mundo em paz. Minha paixão de homemResta comigo; minha solidão resta comigo; minhaLoucura resta comigo. Talvez eu devaMorrer sem vê-Ia mais, sem sentir maisO gosto de suas lágrimas, olhá-la correrLivre e nua nas praias e nos céusE nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esseO meu martírio; que às vezesPesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosasForças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a trevaMas que eu devo resistir, que é preciso...Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescênciaCom toda a violência das antigas horas de contemplação extáticaNum amor cheio de renúncia. Oh, peçam a elaQue me perdoe, ao seu triste e inconstante amigoA quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhanteA quem foi dado se perder de amor por uma pequena casaPor um jardim de frente, por uma menininha de vermelhoA quem foi dado se perder de amor pelo direitoDe todos terem um pequena casa, um jardim de frenteE uma menininha de vermelho; e se perdendoSer-lhe doce perder-se...Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrívelPeçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ameQue me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agoraÉ mais forte do que eu, não posso irNão é possívelMe é totalmente impossívelNão pode ser nãoÉ impossívelNão posso.

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