Ontem estava quietinha num canto e vi uma borboleta! Era a borboleta mais linda que já vi : grande, colorida e imponente. Já foi surpreendente o fato de achar uma borboleta ( ainda mais linda desse jeito) nessa cidade toda feita de pedra e asfalto, cheia de carros e com pouquíssimas árvores imagina se eu desconfiasse aonde ela foi se esconder. A borboleta maravilhosa entrou numa lata de lixo e de lá não saiu (ao menos até a hora de eu ir embora) . Fiquei extremamente intrigada com isso: o que faria uma criatura tão linda e delicada dentro do lixo, junto com o que as pessoas jogam fora? As pessoas só jogam fora tudo aquilo que não presta mais, que é podre, que não serve. Acho que a beleza e a delicadeza sempre são úteis pra dar novas cores à vida. ESsa semana mesmo recebi abraços inesperados que aqueceram meu coração. Há sempre motivos para sorrir, mesmo que eles não estejam aparentes. Na dúvida sorria, isso vai melhorar seu dia. Agora temino com um apelo e uma conclusão : por favor não joguem fora as borboletas. E a conclusão: a borboleta estava ali porque ela achou que num poço de sujeira ela poderia trazer brilho e amor , ou então onde todos viam coisas inúteis ela viu poesia.
Ah e tudo isso me lembrou um poema de Castro Alves chamado O Pássaro e a Flor
O tema é um pouco diferente mas não importa, a poesia vale a pena
Fábula - O pássaro e a flor
Era num dia sombrioQuando um pássaro erradioVeio parar num jardim.Aí fitando uma rosa,Sua voz triste e saudosa,Pôs-se a improvisar assim."ó Rosa, ó Rosa bonita! Ó Sultana favoritaDeste serralho de azul:Flor que vives num palácio, Como as princesas de Lácio, Como as filhas de 'Stambul.Corno és feliz! Quanto eu deraPela eterna primaveraQue o teu castelo contém...Sob o cristal abrigada,Tu nem sentes a geadaQue passa raivosa além.Junto às estátuas de pedraTua vida cresce, medra,Ao fumo dos narguillés,No largo vaso da ChinaDa porcelana mais finaQue vem do Império Chinês.O Inverno ladra na rua,Enquanto adormeces nuaNa estufa até de manhã.Por escrava - tens a aragemO sol - é teu louro pajem.Tu és dele - a castelã.Enquanto que eu desgraçado,Pelas chuvas ensopado,Levo o tempo a viajar,- Boêmio da média idade,Vou do castelo à cidade,Vou do mosteiro ao solar!Meu capote roto e pobreMal os meus ombros encobreQuanto à gorra... tu bem vês! ...Ai! meu Deus! se Rosa foraComo eu zombaria agoraDos louros dos menestréis!. . .
Então por entre a folhagemAo passarinho selvagemA rosa assim respondeu:"Cala-te, bardo dos bosques!Ai! não troques os quiosquesPela cúpula do céu.Tu não sabes que delírios Sofrem as rosas e os lírios Nesta dourada prisão.Sem falar com as violetas.Sem beijar as borboletas,Sem as auras do sertão.Molha-te a fria geada...Que importa? A loura alvoradaVirá beijar-te amanhã.Poeta, romperás logo,A cada beijo de fogo,Na cantilena louçã.Mas eu?! Nas salas brilhantesEntre as tranças deslumbrantesA virgem me enlaçaráDepois cadáver de rosaA valsa vertiginosaPor sobre mim rolará.Vai, Poeta... Rompe os aresCruza a serra, o vale, os maresDeus ao chão não te amarrou!Eu calo-me - tu descansas,Eu rojo - tu te levantas,Tu és livre - escrava eu sou! ...
Internetes
Há 15 anos

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